Noite f*da pra c*ralho

Indicaí. 2017. Cobertura colaborativa por Paulo Ricardo, Malibu.

Já havia começado o evento quando cheguei. Achei estranho ter pouca gente na porta d’A Autêntica. Fazia sentido, no entanto. A festa começava com uma roda de discussões sobre  experiências pessoais, gestão de carreira e mercado. Pra mim, em plena terça-feira à noite, as pessoas só querem se divertir com festas e drogas recreativas pra esquecer um longo e deprimente dia de trabalho além do fato de que ainda falta mais da metade pra semana chegar ao fim. “Ninguém tá querendo fazer roda de discussão pra discutir porra nenhuma não. Muito menos mercado e produção, coisas que são tratadas em horário comercial. A galera deve chegar direto pro show.”, pensei. E minha surpresa foi perceber que eu tava completamente enganado.

Foi só passar pela porta do espaço de shows que pude ver um lugar apertado de tão cheio, geral cercava a roda de debate com vários agentes da cena cultural. Tava rolando um papo necessário sobre modelos de negócios musicais que achei interessante mas eu não queria saber sobre mercado. Só queria ouvir e tocar roque deboas sem sofrer muito. E é por isso que minha carreira musical nunca irá pra frente.

Ao fim da roda, me aparece pra cantar um artista que eu nunca tinha ouvido falar. Um tal de Márcio Pereira, que também participou do debate com opiniões contundentes sobre várias coisas que eu não me lembro agora. Já no palco, além de estar usando uma linda “brusinha“ estampada com abacaxis, ele fazia dupla com outro truta, tocando músicas que eu jamais ousaria encarar por vontade própria. Normalmente, nesse modelo de apresentação, os cantores tocam seu próprio violão. Eu não consegui entender a necessidade de 2 pessoas pra tocar aquilo, até que o filh*dap*ta me aparece com um clarinete mandando um som cabuloso. Quem é que toca um clarinete, bicho? Quem é que toca bem a p*rra de um clarinete em um evento de música autora?

Claro que fiquei chocado. Minhas experiências são quase todas em shows de punk rock ou outros tipos de rock do sub-gênero “pauleira” e, contrariando o baixo padrão que estou habituado, era possível ouvir as letras de forma cristalina. Fiquei reparando as músicas e aquele negócio foi me seduzindo. Eu tava querendo cantar junto “paneleeete meu panelete num dia útil que se você for emboraaa eu vou virar mendigooo”. Eu não sabia se aquilo era Chico Buarque ou Vanessa Rangel (em uma das músicas eu jurava que podia cantar “tô com saudade de você debaixo do meu cobertoooor”). Todo mundo parecia saber todas as letras, menos eu. Em vários momentos um belo coral com o público me deixou emocionado. Que bonito, cara!

Esse é o tipo de show que te deixa até sem graça de conversar no meio, de tão intimista. Ao contrário da banda que veio em seguida, o Pelos (antigamente acrescida do “de Cachorro”). Fazia tempo que eu não via show dos caras e eles já me começaram enfiando uns instrumentos de sopro do caralho, na minha cara, fazendo “finifin finifin finini finifin”. Era aquilo que eu tava querendo quando saí de casa. Queria rock e o Pelos é um rock que eu procuro na internet e ouço por livre e espontânea vontade. É bom, simples. Além de não decepcionarem, mandam muito bem. Eu confesso que ao longo dos acontecimentos eu ia ficando um pouco mais embriagado e a partir de algum ponto eu não conseguia prestar atenção em mais nada além dos solos de guitarra bicho! Só solo cabuloso.

Em algum momento, fui até o bar e pedi uma Heineken. Não tinha! Me perguntaram se eu queria Bud ou Stella. Eu fiquei IN-DI-G-NA-DO! Quem é que toma Stella, bicho? Stella? Tô fora! Pego minha Bud e vou embora! Mas nem fui embora não, o show já estava prestes a terminar e fui lá fora tomar um ar, socializar e compartilhar minha atual revolta com pessoas igualmente bêbadas.

No fim da noite eu já tava muito bêbado e morrendo de fome. fui até o balcão e comprei a melhor ideia que eu poderia ter naquele momento, que era um pacote do salgadinho Pingo D’ouro. Eu devorava aquilo como se eu tivesse com uma larica de certos tipos de cigarro. A bateria do meu celular já tinha acabado e fiquei dando graças a deus que eu tinha um Power Bank pra pedir um Cabify pra voltar pra casa (nem transporte mais a gente sabe conseguir sem essas bostinhas eletrônicas). Voltei pra casa, deitei na minha cama e antes de pegar no sono, ainda mastigando um pedaço de chocolate que peguei na geladeira, só consegui pensar:

“Isso é que é vida! Encontrar uma galera legal, falar merda, ficar bêbado, escutar um som maroto, comer um rango doido e tomar toco da menina que você pensou estar te paquerando!”

As guitarras dançam

Indicaí. 2017. Cobertura Colaborativa por João Henrique Motta.

Os cabelos da guitarrista Bruna balançam no palco, um público cada vez maior começa a se formar e as cabeças e pés começam a bater mais forte. Era o show da Miêta, banda mineira formada por um front feminino e punk.

Diferente da última apresentação que vi da banda – em que o som ficou um pouco abafado – o show na quarta feira permitiu que o tudo expandisse pel’ A Autêntica e acertasse em cheio o público com muito experimentalismo. Principalmente as mulheres, convidadas a “chutar o patriarcado lá na frente”. Além do engajamento necessário, a banda transparece um espírito do rock independente que tem sido criado na capital mineira. Um encontro do punk, do pós-punk, do psicodélico com a atmosfera de BH. Um som local e honesto.

Foto: Pedro Castro

As cervejas começaram a acabar mais rápido. Penso que o bom show te dá mais sede. Curto, mas intenso, como devem ser os shows em festivais. Fui fumar um cigarro e já um pouco embriagado pude cumprimentar a Bruna. Diva. Toca muito. Ela destacou influência em Hendrix e Smiths. Duas guitarras que eu gosto bastante. Mais cigarros, mais cervejas e mais papo aleatório. O show dos baianos do Vivendo do Ócio já acumulava uma Autêntica cheia. Psicodélico, pesado e alto. A quarta-feira estava quente. A temperatura foi aquecida pela poluição concentrada, que não se desfaz há algum tempo, devido a um longo período de estiagem (50 dias sem chover em BH!). Cerveja gelada se fazia cada vez mais necessária. Latões e long necks suavam e refrescavam um público fiel que cantou e dançou ao som de uma boa noite de rock alternativo.

Cobertura Colaborativa por Indicaí

A vontade é de registrar a história do Transborda 2017 do ponto de vista de quem vive ela na ponta. Além disso é importante que a memória do festival dure mais do que a semana do evento. Também é uma questão central o debate sobre jornalismo cultural e a raríssima cobertura desenvolvida pela imprensa tradicional. Mas mais do que tudo, o coletivo Pegada gostaria de falar de música, de como ela muda as nossas vidas e o ambiente ao nosso redor, de como ela nos faz percorrer distâncias e nos encontrar com o inesperado, de como ela vibra dentro de nós e nos transforma, de como nos une, de como nos emociona.

Para atender essas demandas, foram convocados os parceiros da plataforma de música colaborativa Indicaí, que montou uma equipe de 11 colaboradores para acompanhar o festival. Todo o material produzido será publicado aqui no blog!